
O vinho chinês de 2.300 anos que não era feito de uva
Arqueólogos acharam um vinho chinês de 2.300 anos numa tumba perto da Grande Muralha. Saiba o que havia na garrafa e por que não era de uva.
Em agosto, uma notícia vinda da China correu os sites brasileiros: arqueólogos teriam encontrado um vinho chinês com 2.300 anos, ainda líquido, dentro de uma garrafa de bronze. A descoberta é real e impressionante. O detalhe que quase nenhuma manchete explicou é que, ali dentro, não havia uma gota de uva.
O que os arqueólogos encontraram

A garrafa estava numa tumba de Ningxia, no norte da China, datada do período dos Reinos Combatentes. Isso significa algo entre os séculos 5 e 3 antes de Cristo. O cemitério fica a cerca de dois quilômetros de um trecho da Grande Muralha da mesma época. Ali estariam enterrados moradores locais e soldados que guardavam a fronteira.
O recipiente de bronze, com o gargalo em formato de cabeça de alho, guardava quase quatro litros de líquido. Ele não tinha tampa. Mesmo assim, uma vedação dupla segurou a bebida por mais de dois milênios: tecido por dentro e uma camada de barro por fora. Segundo os pesquisadores, é a amostra líquida de bebida alcoólica mais bem preservada desse período já registrada no país.
As análises encontraram leveduras, grãos de amido e dezenas de compostos químicos. A conclusão foi clara: era uma bebida fermentada feita sobretudo de painço, com um pouco de trigo e cevada. O painço é um cereal miúdo, muito cultivado na China antiga.
Por que o vinho chinês da tumba não era de uva
A confusão começa na tradução. Em chinês, a palavra jiu vale para quase qualquer bebida alcoólica. Por séculos, ela designou sobretudo bebidas de cereais. Em inglês, o termo costuma virar “grain wine”, vinho de grãos. Ao chegar ao português, o “de grãos” se perdeu pelo caminho e sobrou apenas o vinho.
Pela definição do mundo do vinho, a bebida da tumba está mais perto da cerveja e do saquê. Isso não diminui a descoberta em nada. Pelo contrário, ela mostra uma técnica refinada de fermentação de cereais, séculos antes de a uva ganhar espaço por lá.
Nove mil anos de fermentação
A história do vinho chinês, no sentido amplo de bebida fermentada, é bem mais antiga. O país guarda a evidência química de bebida alcoólica mais remota do mundo. Ela veio de jarros de cerâmica de um vilarejo neolítico no centro da China. Nos resíduos, pesquisadores identificaram uma mistura fermentada de arroz, mel e fruta, feita há cerca de nove mil anos.
A fruta pode ter sido o espinheiro chinês, a uva silvestre ou as duas. Ou seja, a bebida mais antiga do país talvez tivesse um pouco de uva. A de 2.300 anos, chamada de vinho nas manchetes, não tinha nenhuma. Já os registros mais antigos de vinho de uva estão na Geórgia, no Cáucaso, com cerca de oito mil anos.
De volta a Ningxia, agora com uva

A ironia mais saborosa da história está no endereço. Ningxia, a região onde a garrafa foi encontrada, é hoje a grande vitrine do vinho chinês de uva. Ao pé das montanhas Helan, o clima é seco e ensolarado. Ali, vinhedos plantados nas últimas décadas produzem tintos premiados em concursos internacionais.
Assim, a terra que guardou uma bebida de cereais por 2.300 anos hoje coloca a China no mapa do vinho. Para quem acompanha o mundo do vinho, essa é a parte mais interessante da notícia. O vinho chinês não é novidade, apenas mudou de matéria-prima.
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Este conteúdo é uma interpretação do material original. Para mais detalhes, consulte a fonte: Galileu Arqueologia
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