
O mundo do vinho ganhou uma nova uva: conheça a Sémillon Gris
A sémillon gris foi reconhecida pela OIV como variedade própria, com a África do Sul como origem. Conheça a história dessa uva rosada.
O mundo do vinho ganhou uma nova uva, e a Sémillon Gris chega ao registro oficial com séculos de estrada nas costas. A OIV acaba de reconhecê-la como variedade própria, com a África do Sul designada como país de origem. Não se trata de cruzamento planejado nem de invenção recente de laboratório. É uma mutação de casca rosada que surgiu espontaneamente na Sémillon branca e passou gerações escondida em vinhedos velhos do Cabo, sem nome próprio.
Antes de entrar na história, vale entender por que o registro importa. Certificar uma variedade não é vaidade burocrática. É o que libera material sadio de plantio para produtores de qualquer país.
A groendruif que dominou o Cabo e quase desapareceu
A Sémillon chegou à África do Sul nos anos 1650, junto com os primeiros colonos holandeses. Era tão comum que recebeu um apelido genérico: groendruif, uva verde. Em 1822, respondia por 93% dos vinhedos do Cabo. O parque plantado saltou de cerca de um milhão de videiras em 1795 para 22 milhões poucas décadas depois.
Branca e rosada cresciam lado a lado, colhidas e prensadas na mesma leva. Ninguém as tratava como coisas distintas. Há registros sugerindo que a versão rosada, chamada de rooi groendruif, era até a mais frequente das duas.
Depois veio a filoxera. Em 1979, a Sémillon já representava apenas 3,4% do vinhedo nacional sul-africano, e a rosada não aparecia nem nas estatísticas. Hoje o país soma pouco menos de 874 hectares das duas versões juntas. A partir de 2027, a rosada passa a ser contada em separado, o que por si só diz algo sobre a mudança de status.
O que muda com o reconhecimento da Sémillon Gris
O processo levou catorze anos e não seguiu manual algum, porque manual não existia. Uvas importadas entram por um caminho de quarentena já estabelecido. Uma variedade nativa que precisa ser reconhecida do zero exige que os protocolos sejam escritos junto com o pedido.
Em 2012, borbulhas de um vinhedo plantado em 1960 passaram por termoterapia in vitro para eliminar patógenos. Vieram então propagação, avaliação e certificação. O bloco-mãe ficou pronto em 2022, e com ele o material sadio disponível para quem quiser plantar.
Aqui está o ponto que interessa a quem bebe. Sem certificação, a Sémillon Gris seguiria refém de um punhado de vinhedos centenários. Com ela, qualquer produtor sério pode multiplicá-la. Ainda assim, o volume vai continuar mínimo por vários anos.
Uma mutação que a ciência ainda não explica
Ninguém sabe o que disparou a mutação. Um departamento da Universidade de Stellenbosch vem testando borbulhas sob condições manipuladas de pH do solo, radiação UV e temperatura, à caça de marcadores genéticos.
Algumas hipóteses já caíram pelo caminho. A cor não vem de vírus, e a prova é elegante: videiras livres de vírus produzem justamente as uvas mais escuras. Também está estabelecido que a mutação é de via única. Uma vez propagada, a rosada não volta a ser branca. Além disso, ela não depende de videira velha, como se acreditava. Um vinhedo novo plantado em 2013 a partir de material rosado produziu uvas rosadas sem nenhum problema.
A teoria mais sedutora é a do protetor solar. A Sémillon nasceu em Bordeaux, num clima mais frio que o do Cabo, e a pigmentação da casca poderia ser uma resposta adaptativa à luz sul-africana. É uma hipótese bonita, mas segue hipótese.
A África do Sul agora tem duas uvas que pode chamar de suas. Uma foi criada de propósito, em 1925, cruzando Pinot Noir e Cinsault. A outra se criou sozinha, sem que ninguém pedisse.
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Este conteúdo é uma interpretação do material original. Para mais detalhes, consulte a fonte: Decanter
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